Meu primeiro amor


Clara lembrança.
Ele era o mais especial pra mim desde o primeiro dia. No meio de toda aquela jovial brutalidade, do jeito desajeitado com que eles me pegavam, com uma ansiedade imatura, ele parecia tão sereno, tão tranquilo. Eu notava, mesmo sem olhar ele diretamente, que ele não tinha pressa. Conforme os outros iam fazendo, em mim, alguma oportunidade aparecia, e ele até se movimentava para vir ter "a sua vez". Mas sempre acabava por hesitar um instante, o que bastava para algum outro, de forma quase rude, atravessar-se na frente dele, e... me pegar.

Naquela fase da vida, eles não eram nada demorados. Começavam rápido, e rápido terminavam. O importante para eles era que tivessem feito, e não importava nem mesmo o que estava sendo sentido. Por vezes eu pensava o mesmo. "Faça logo, e faça rápido", pensava eu. Afinal, embora alguns nem fizessem diferença, outros me faziam, e meu corpo ficava machucado. E um pouco sujo. Eu não posso dizer que gostava. Nem que não gostava. Era diferente, parecia simplesmente "necessário". Eles queriam, e o trato era simples: Eles faziam em mim, e não contavam pra meu pai que eu tinha feito com o primeiro deles com quem fiz, e fui vista por alguns deles.

É, e isso me aterrorizava. E tinha sido com Ele. Que agora me olhava com um certo ar de "comoção". às vezes eu via ele desviar o olhar. Sabia que ele se sentia um pouco culpado. Talvez ele jamais tivesse realmente desejado aquilo, quando aconteceu, mas eu quis. Não medi, até por que não tinha idade para medir consequências, o quanto poderia me arrepender. Mas jamais me arrependi de fato. 

Apenas perdi as contas. Era o quinto? Ou era o sexto hoje? Talvez já fosse o sétimo, pois me perdi nos pensamentos enquanto eles iam fazendo em mim. Eu estava em pé, de costas, com as mãos na borda de um velho poço, preferia nem ver os rostos, eles faziam muita careta. Se era sexto ou sétimo tanto fazia. Aparentemente, era o último. E não sei se por estar à espera de que acabassem logo, parecia maior que os outros. E acho que de fato era.

 

O maior incômodo é que todos, mas ele mais que os outros, tentavam por também na frente. Eu deixava claro que "não dava na frente". Somente atrás. Na frente era... simplesmente não podia. Mas ele forçava, tirava de trás, e ficava tentando empurrar com força "na frente". Eu me espremia toda para não entrar, e desviava com a mão, até que entrasse atrás novamente. Era um jogo de persistências, e eu geralmente ganhava. Geralmente.

"Já tá frouxo e sujo atrás. Deixa eu por na frente". Ele era persistente, e eu detestava escutar aquela voz com aquele tom debochado dele. "Eu aperto, coloca atrás. Eu aperto pra você", insisti. Com olhar de desdém e suspirando, senti ele empurrar com uma força maldosa. Muita força, e muito maldosa. Por sorte, era o sétimo. Já não fazia quase diferença. E como eu já estava "suja" de todos que "acabaram", ele simplesmente "escorregava".

Mas eu tinha um compromisso. Não com ele, mas comigo mesma. Se eu conseguisse apertar o sfincter com força, ele acabava mais rápido. E o intervalo já tinha acabado fazia tempo. Ele acabou. Demorou mais que os outros, e me sujeou mais que os outros. Mas acabou.

Eu ainda não tinha terminado de puxar as calças quando ele já tinha se virado e ido embora. Já estava atrasado pra entrar. E aquele olhar doce Dele, o "menino dos olhos serenos", agora estava mais atento a mim. Levantou-se, e veio, não tinha mais ninguém pra competir. Me olhou, e passou por mim. "Vamos. Vamos entrar atrasados.".

Não sabia explicar a sensação ruim de desprezo que senti. "Ivan... Vem cá... Quer fazer? Vem. Eu tiro, ó." 

Já virada de costas, na posição novamente, apoiada no poço, esperei. E ele ficou parado onde estava. 
"Não dá, estamos atrasados". Com a expressão frustrada, braços jogados ao lado do corpo, inertes, ele estava parado, me olhando.

"Vem, faz. Eu deixo você fazer na frente, você quer? Vem, faz na frente". Tentei convencê-lo. Mas foi inútil.

"Posso te dar um beijo"?

"Um beijo", pensei eu... "Ele quer um beijo". O beijei no rosto. E dei um abraço longo e demorado. Ele correspondeu ao abraço. Tinha quase um palmo menos que eu. E eu me sentia protegida no abraço daquele menino de olhos serenos. Quando o abraço terminou, ele estava com uma expressão diferente. Estava rosado, e agora, não parecia angustiado nem frustrado. Estava quase sorrindo!

Fomos em direção ao pátio da escola, que ficava umas centenas de metros daquele terreno abandonado e cheio de mato. Já fazia silêncio, todos já haviam entrado. Até ali fomos de mãos dadas. Dalí, ele me soltava, e eu entrava antes. Sempre separados. Sempre separados. Mesmo sendo de salas diferentes, era melhor assim.

"Atrás... Ali. Limpa atrás. Tá... 'sujo'. Limpa."

Ele sempre me avisava. Eu sempre ia limpando. Em breve escorria de novo, mas... Eu procurava manter limpo. Ele procurava me avisar. Acho que ele também me amava.

Antes de entrar, eu não me contive. Me virei, e o chamei:

"Ivan... Eu... Amanhã, será que... Faz assim, chega antes, eu vou mais cedo, tá? Quer ser o primeiro"?

Um instante pensativo, e ele sorriu. Fez "que sim" com a cabeça. E se foi pela outra porta. Fiquei com uma sensação boa. Amanhã seria diferente. Ivan ia fazer primeiro. Acho que eu o amava.


8 comentários:

  1. adorei o blog.. já sou visitante fiel.. e fico ansioso, esperando novas histórias..
    está de parabens.

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  2. Baronesa, posso perguntar a idade que tinha na época desse relato?

    B.

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  3. Que lindo, tristemente lindo. Obrigado por compartilhar, me fez lembrar -em certa parte- minha adolescência.

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  4. Obrigado, queridos.
    Sobre a idade, eu era jovem. Muito jovem, como as meninas são quando vivem isso na escola.

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  5. paulacriocarj@hotmail.com4 de janeiro de 2013 19:30

    Vc escreve muito bem. Parabéns.

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  6. paulacariocarj@hotmail8 de janeiro de 2013 13:34

    É, época de descobertas...

    No meu passado de menina, tb passei por algumas chantagens, nas foi algo com um outro garoto apenas, que me flagrou na escada do prédio com uma casinho da época.

    Já tive um pouco de raiva da situação, mas hj sei que aprendi muito mais com o chantagista que com o casinho...

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  7. Eu fico encantado toda a vez que leio essa postagem, Baronesa. Já sabes que sou um grande admirador teu. Acho que se não fôssemos tão amigos, eu juro que pediria o lugar do "ivan" na tua vida, e me casaria contigo!
    Você é incrível mulher, escreva mais histórias suas assim, por favor. A gente merece.

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